quarta-feira, 15 de abril de 2015

Fazer omoletes...com os ovos dos demais - PET

Divulgado a pedido de uma professora de Inglês, também ela apanhada na teia do PET.


"De todos os artigos que li, nenhum considerei abrangente (mea culpa – talvez não tenha procurado o suficiente…). Assim sendo e porque a temática me é cara, surgiu a indómita vontade de sobre ela opinar…
Para uma visão global desta problemática, há que explanar três vertentes que embora se correlacionem, cada uma per se constituiria argumento de peso para contestar a arbitrariedade com que tal “fardo” foi e está a ser imposto:
1.     O envolvimento dos professores de Inglês;
2.     O público-alvo (alunos de 9º Ano);
3.     A instituição Escola.
1.     No que respeita aos professores de Inglês.
·         Os docentes são obrigados a realizar formação;
·         Não bastando o supra mencionado, têm que se submeter a uma avaliação por parte da instituição Cambridge, o que em si constitui um descrédito face às habilitações académicas e profissionais reconhecidas pelo estado Português;
·         Se não somos idóneos, qual a razão de nos afectarem a tal tarefa?
·         Porque não mobilizarem os seus próprios formadores?
·         Ao invés, se é necessária uma certificação, qual a razão de não ser aberta a todos os voluntários (com tantos desempregados) que para tal se dispusessem, independentemente das suas qualificações/habilitações se as nossas, pelos vistos, de nada servem?
·         O Estado está a disponibilizar mão-de-obra a uma entidade privada (não nacional), o que implica horas extra e não remuneradas para os visados. Em todos os outros países, este trabalho é pago e exercido em regime de voluntariado.
·         Quer para a formação, quer para as posteriores tarefas, os professores envolvidos têm que faltar nas suas escolas, mas suas turmas, aos seus alunos. De acordo com as normas vigentes, cada docente pode ser escalonado para realizar de quatro a seis momentos de avaliação oral, tendo cada uma deles a duração de uma manhã ou tarde.
·         Os supra citados momentos de avaliação oral implicam sempre a deslocação dos avaliadores a estabelecimentos de ensino onde não leccionam, apenas tendo direito a ajudas de custo se o trajecto (só ida) for superior a 20 Kms. Não só farão horas extra e não remuneradas, como serão onerados com despesas acrescidas de deslocação.
·         Os avaliadores da componente escrita, para tal incumbência, terão que aceder a uma plataforma online. Estamos, mais uma vez, a falar de horas extra de trabalho de casa, com o consequente decréscimo de tempo para dedicar às tarefas oficiais e já tão lesada vida privada.
2.     Público-alvo (alunos de 9º Ano).
·         Para além dos exames obrigatórios de Português e Matemática a que os alunos de 9º ano terão que se submeter, é mais uma prova, que em nada conta para a sua classificação oficial final;
·         Apesar da obrigatoriedade, só terão direito ao respectivo certificado mediante o pagamento de 25€;
·         Ver-se-ão privados de dois turnos de aulas (algumas das quais só têm uma vez por semana) para a realização das várias componentes da prova (escrita e oral).
·         Os testes têm uma orgânica completamente diferente da que estão habituados e podem eventualmente implicar o cancelamento de momentos de avaliação anteriormente calendarizados, sendo por vezes impossível a sua remarcação sem se sobrepor a outras avaliações, o que é altamente indesejável;
·         À volta desta questão, alguém (entenda-se editoras), está desde já a tentar potenciar o seu negócio, com a publicação de manuais destinados à preparação dos alunos para este tipo de exames, que os próprios professores de inglês desconhecem, dado o seu secretismo e uma vez que deles não podem ser vigilantes. Pergunto-me: se são assim tão secretos, sendo proibida a sua divulgação, como é que as editoras a eles têm acesso? Se tal não é indício de jogadas mercantilistas… negociatas… cada um que tire as suas conclusões…
·         Fará algum sentido os professores prepararem os seus alunos para este tipo de exames em detrimento do programa oficial que têm para cumprir?
·         É uma certificação extemporânea, dado que no seu percurso escolar a frequência da disciplina de inglês é obrigatória no mínimo até ao décimo-primeiro ano, altura em que a proficiência dos alunos será superior ao nível que nesta fase se venha a certificar.
3.     A instituição Escola no seu todo também não fica incólume face a este processo:
·         Não haverá aulas aquando da realização da prova oral, pois à semelhança de um exame nacional, mão pode haver mais de quinze alunos por sala, sendo cada uma delas vigiada por dois professores, fora os suplentes, que têm que ser convocados e estar de prevenção;
·         O supra citado lesa os restantes alunos de outros anos, muitos deles sujeitos a exames nacionais e com testes marcados para esse dia, implicando igualmente a intervenção de outros professores de outras disciplinas, muitos deles a trabalhar horas extra, não pagas;
·         Para além dos professores vigilantes, há também que constituir um secretariado de exames, com regras ainda mais restritivas que as vigentes;
·         A Escola é responsável pela produção de pautas em duplicado, quer para a prova escrita, quer para a oral, (na escola onde leciono, isto significa a impressão de 1156 pautas) sendo-lhe totalmente imputado o custo de consumíveis.
Em termos de custos, é só fazer as contas aos milhares de professores envolvidos e respectivas horas dedicadas a este projecto, para se apurar a verba com que o Governo presenteou esta entidade privada (o Cambridge) e o lucro que vai ter, só pela mão-de-obra gratuita e forçada que lhe é atribuída. A troco de quê? … cada um que tire as suas conclusões.
Notas:
Após ter escrito o presente texto, deixou de ser obrigatória a certificação dos professores de Inglês. No entanto, tal constituiria uma obrigação, não tivesse a tutela entretanto corrigido a sua posição face às evidências do enorme erro que cometeria, sob pena de ser parte activa no descrédito do ensino oficial em Portugal."


O presente artigo não observa intencionalmente as regras do novo acordo ortográfico.


Margarida Martins

7 comentários:

  1. Excelente texto! De uma lucidez incrível!
    Como é possível que NINGUÉM (sindicatos, por exemplo) tenha conseguido impugnar a dita formação, quando a mesma contraria o ECD: a formação NÃO poderia ser feita com prejuízo de atividades letivas. Ou isso já é possível?
    Já NÃO é necessário a proclamada certificação para se ser classificador do exame?! Não sabia... Há suporte legal?
    É uma violência e uma indignidade aquilo a que se está a sujeitar os profissionais da educação (neste caso, os professores de Inglês).

    Parabéns pelo post.

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  2. Concordo plenamente com a exposição. Apenas a nota final me suscita uma observação: Parece-me que a tutela não reconheceu "ser parte activa no descrédito do ensino oficial". Diria antes que, face ao elevado número de docentes que se recusaram a fazer o dito "Placement Test", a tutela começou a "perceber" que poderia não ter número suficiente de "examiners".

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  3. Ou isso... resolveram ceder neste aspecto para tentarem minimizar os "estragos" e assim persuadirem os mais vulneráveis...
    Assumindo-me como autora do texto, desde já lamento algumas gralhas, das quais só à posteriori me apercebi. É o que dá não ter imprimido antes de publicar... Mas o que interessa é que estas mensagens vão passando, de modo a informar os menos esclarecidos sobre esta enorme fraude a que nos querem sujeitar.
    Margarida Martins

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    1. informar não chega. Importante seria agir. Pena que nos acomodemos.

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  4. ora pois, este como muitos outros é mais um negócio. Quem lucra com ele? À custa de quem? Pois, dos tótós dos professores que se vergam a tudo o que lhes impõem, por culpa de uma porcaria de sindicatos que só existem para figurar como protagonistas e um dia poderem ascender a lugares visíveis, sejam eles quais forem.

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  5. Por mim, penso não me ficar por aqui... para além de que já por duas vezes boicotaram esta publicação no meu Facebook. Claro está que tenho sido reincidente na republicação.
    Margarida Martins

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