terça-feira, 27 de junho de 2017

E quanto à proposta de greve de zelo...

...feita pelo Alexandre Henriques (aqui), importa tecer algumas considerações. Em primeiro lugar vamos à definição de greve de zelo, para que de alguma forma possamos enquadrar esta tipologia que é para alguns desconhecida.

Assim, e depois de pesquisar algumas fontes, considero greve de zelo como uma greve de "lentidão", onde a execução do nosso trabalho é concretizada com excessiva e minuciosa observância dos normativos legais em vigor. Traduzindo, e no essencial, será desenvolvermos trabalho cumprindo de forma rigorosa as 35 horas de trabalho semanal.

Começo por escrever, que em rigor, é uma proposta de greve com a qual me identifico e que desde há uns bons anos defendo... Aliás, quem me segue neste blogue, sabe perfeitamente que defendo este tipo de greve quase desde a sua criação (em 2006). Mas conheço as limitações de tal proposta, e das quais irei apenas exemplificar quatro:

a) A nossa classe é uma classe de "voluntários" que dificilmente recusa trabalho extra;
b) Alguns consideram que uma greve deste tipo iria colocar em causa o desenvolvimento da componente letiva, afirmando outros que sem aulas preparadas seria difícil controlar os alunos na sala de aula;
c) Existe também quem defenda que ao não cumprirmos com as nossas tarefas (independentemente de despendermos em tal, 40, 45 ou mesmo 50 horas semanais), seremos profissionais pouco competentes;
d) Os sindicatos continuam a adorar greves cujos resultados (por menos bons que sejam) possam ser publicitados a curto prazo, acreditando que greves efémeras produzem consequências mais impactantes que uma greve por mais tempo, mais silenciosa, e porque não escrevê-lo mais disciplinada e difícil de recusar.

Pois bem... Para mim, esta é, neste momento, a forma de luta que poderá produzir melhores resultados, não só porque elimina muitos dos argumentos que aparentemente têm mais força (apenas como exemplos dos argumentos contra a greve "clássica": o impacto salarial, a discordância relativamente aos motivos pontuais que estão na base da mesma, aversão a esta ou aquela organização sindical que a convoca e os alunos que ficarem prejudicados), mas acima de tudo porque basta desenvolvermos trabalho no número de horas para o qual somos efetivamente remunerados. E não mais do que isso!

E como se processaria uma greve deste tipo?

Bem... Dificilmente poderemos ter instruções especificas para cada um, mas todos sabemos como nos sentiremos mais confortáveis a implementá-la. Deste modo, como considero prioritário a preparação de aulas, seria algo a que daria primazia... Na prática, e a título de exemplo, se na quarta-feira de uma determinada semana, já tivesse consumido a minha dose de componente não letiva em preparação de aulas, tudo o que fossem relatórios, correção de fichas de avaliação e outras coisas que tais, ficariam para a semana seguinte. E essa correção posterior seria concretizada, se entretanto não tivesse de preparar mais aulas, caso contrário, arrastar-se-ia para depois. De certa forma, é algo que faço desde há quatro anos e que só não cumpro de forma pontual... Para tal, tenho registos em folhas de cálculo com o número de horas que trabalho semanalmente, e perante uma "necessidade" de trabalho extra, apresento quase sempre as minhas contas a quem exige que desenvolva trabalho de forma graciosa. Se tenho reputação de incompetente? Não... Bem pelo contrário, percebi que ao fazê-lo as pessoas dão mais valor às minhas horas de trabalho. E admito que tal situação, possa ser suficiente para que o Ministério da Educação nos dê o valor que merecemos e que perceba que não somos apenas estatística descontente.

Se considero que alguma organização sindical a vai convocar?

Não!

Se considero que a esmagadora maioria da nossa classe a iria concretizar?

Também não.

Infelizmente estamos demasiado agarrados a um ideia de profissionalismo, que nos tem trazido vários amarguras e que em nada nos valoriza.

3 comentários:

  1. Alexandre Henriquesjunho 27, 2017 8:50 da tarde

    Exatamente o que penso e por isso ninguém lhe vai tocar... Continuemos a brincar às greves...

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  2. Concordo plenamente! O Ministério abusa dos professores enquanto o permitirmos. Um exemplo são os exames, provas finais, provas de aferição e afins que são feitos com a boa vontade dos professores. Sou Coordenadora do secretariado de exames de um grande agrupamento e depois de andar a organizar e aplicar Exames, provas de aferição até durante a atividade letiva, o que implicou semanas de 50 h de trabalho, claro, sem direito a horas extrordinárias, fui brindada com 39 provas para corrigir. Questionei o JNE, como deveria conciliar em termos de tempo, as duas funções dentro das 35 h que me são devidas e claro que não obtive resposta. A ideia é mesmo fazer tudo! Enquanto não trabalharmos apenas 35 h e isto não começar a desmoronar, vão continuar com a escravatura dos professores.

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  3. E já agora, alguém me pode explicar como é que no concurso anterior as listas definitivas foram publicadas a 19 de junho e este ano a data apontada é segunda quinzena de julho. Será que os iluminados do ministério e os "lutadores" dos sindicatos não percebem que isso impede uma distribuição de serviço adequada?

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