quarta-feira, 23 de abril de 2014

Da hipocrisia

Se bem que admita que em algumas escolas os principais motivos de desgaste de um professor sejam a hiperburocracia e os problemas que eventualmente surjam em ambiente de sala de aula, acredito que não serão esses os problemas que mais nos cansam.

Bem sei que a minha (ainda) breve experiência profissional poderá não permitir grandes conclusões, mas em quase todas as escolas/agrupamentos por onde passei, o problema do desgaste pessoal e profissional fundamentava-se em grande parte nos nossos colegas de profissão. Não todos, obviamente. Nem mesmo a maioria...

Quem são esses colegas?

Vocês sabem que são. O diagnóstico da "doença" é relativamente fácil e os sintomas são bem conhecidos. Mas para quem ainda não conhece ou se recusa a admitir, segue a lista das principais características que, por norma, se associam a este tipo de colegas:

a) apontam de forma recorrente e insistente os defeitos dos outros; 
b) realçam de forma exaustiva as suas virtudes (mesmo que por vezes inexistentes ou diminutas);
c) tentam subir na hierarquia escolar, através do recurso à inseminação auditiva dos elementos da direção;
d) sorriem e dão palmadinhas "à frente" para posteriormente criticarem "à retaguarda";
e) quando detentores de um pequeno poder, transformam-se em pequenos ditadores;
f) gostam de sugerir metodologias que não aplicam (e se aplicam, os resultados são sofríveis);
g) controlam avidamente o que os outros colegas fazem (chegando mesmo ao ponto de elaborar registos escritos e com datas);
h) geram discórdia, confusão, dúvida, sem nunca apontarem soluções ou caminhos;
i) se necessário, conjugam esforços com encarregados de educação descontentes para destruir a imagem de outros colegas de profissão;
j) julgam que vivem para escola, que dão tudo por ela, quando na realidade apenas a utilizam para lidar com as suas frustrações.

Como lidar com esta tipologia de colegas?

Sinceramente já recorri a um pouco de tudo... Já reagi (quando eu era o alvo), já agi (quando outros eram o alvo) e já ignorei. De todas as estratégias, reconheço que a melhor é mesmo ignorar, mas obviamente que existem limites. No fundamental, o meu objetivo reside no equilíbrio entre a minha própria sanidade mental e não deixar que minem o meu trabalho com os alunos, mas nem sempre o consigo. 

Lembrem-se que estão a lidar com hipócritas, que não reconhecem as suas limitações mas que fazem questão de realçar as limitações dos outros, e sempre de um forma destrutiva.


E vocês, como lidam com estes colegas?

27 comentários:

  1. Fantástica visão da realidade, Ricardo!

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  2. Para Sara: Infelizmente... Preferia ignorá-la ou então que não existisse.

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  3. Se não encontraste esses coleguinhas em todas as escolas por onde estiveste, tiveste mesmo muita sorte. Eu já passei por mais de duas dezenas de escolas e encontro sempre idiotas que não devem ter mais nada para fazer da vida se não chatear.

    Soluções: não há. são malucos e com malucos são se discute. Digo-lhes que sim e atudo e depois como faria normalmente.

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  4. (Correcção ao comentário anterior)

    Soluções: Não há. São malucos e com malucos não se discute. Digo-lhes que sim a tudo e depois faço como faria normalmente.

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  5. Para MJ: Tenho de admitir que posso ter estado na presença destes excelsos colegas em todas as escolas por onde passei, mas talvez por ingenuidade inicial ou por apenas estar pouco tempo na sala dos professores não me tenha apercebido.

    Mas dou de barato que seja uma constante em qualquer escola.

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  6. Muito bom retrato. Parabéns!

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  7. Lidar com estes colegas só mesmo com base em agressividade verbal. Normalmente encolhem-se e não se metem mais.

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  8. Infelizmente há muitos destes exemplares nas escolas. Soluções? Tenho feito o mesmo que tu, dependendo dos casos.
    Sandra.

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  9. Está tudo dito nas tuas palavras. Ainda há bem pouco tempo sofri na pele o que escreveste na alínea i)... :/

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  10. Gostei do escrito!
    Uma coisa é certa, essa espécie por cansaço não me vence. Coitados, uns frustrados, que descarregam nos colegas da escola muito daquilo que acumulam em casa. Mas para mim o mais preocupante é que, por vezes, essa gentalha também descarrega nos alunos ao ponto de conseguirem prejudicá-los.
    Então quando surge um colega a "mexer" com a zona de conforto é um alvo pela certa.
    Venham eles! Quantos são?

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  11. Sinceramente, é um pouco dificil trablhar num ambiente de trabalho assim como descreveu, com pessoas desse género, será que nas escolas está tudo maluco? Se não estão para lá caminham.

    Boa sorte.

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  12. Com o devido respeito e amizade que tenho pelos cães, aqui vai o meu procedimento habitual. Espero que vos ajude:
    «A um cão dá-se um osso.» ou «Os cães ladram e a caravana passa.»

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  13. Estou a passar por uma situação igual, COM A AGRAVANTE de os comandantes incluírem na cena os robôs - os auxiliares EXCELENTES(que pouco mais que nada fazem)para destruir o meu trabalho e a minha imagem junto de toda a comunidade escolar. Ajuda a quem peço?
    Aceito sugestões.

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  14. É a falta de solidariedade activa -e não só feita de pancadinhas nas costas para consolar a vítima-, dos restantes professores que permitem a sobrevivência de tais espécimens. É urgente denunciar o mobbing sob todas as suas formas nos estabelecimentos de ensino pois sabe-se que os dois grupos profissionais mais sujeitos a tais práticas são o dos professores e os profissionais de saúde. Acresce que em média 70 % das vítimas são mulheres. Um inquérito público, regular e interno ajudaria a dificultar a vida aos pequenos tiranos que aliviam as suas frustrações no assédio aos outros colegas e, mais grave ainda quando têm ascendente hierárquico.

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  15. Parabéns! Um belo retrato das nossas escolas!

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  16. Por isso é que eu às vezes me revolto com a hipocrisia daqueles que querem fazer dos professores tudo "bons rapazes". Tretas!

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  17. Maria

    Muito bem Ricardo, sou contratada há muitos anos e como normalmente sou das contratadas mais velhas já fui vitima desse tipo de gente, normalmente contratados e efetivos mais novos que eu e algumas direções vão na conversa.Ignorei com muita classe e conclui que o tempo é o melhor remédio pois a verdade é como o azeite. Contudo, não é fácil pois andei muito em baixo...

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  18. Que texto tão bem escrito! Eu já passei algumas vezes por isso! E não é fácil ultrapassar uma situação desse tipo! Quando foi contra mim fiz tudo o que disseste mas ao contrário! Primeiro ignorei mas depois não consegui! Reagi mas nunca gritando mas provou do seu próprio veneno! Foi forma de me deixar um pouco em paz. Aturando maluco por 3 anos chega a um dia que não se aguenta! Desculpa o desabafo!
    Obrigada pelo texto Ricardo!

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  19. No dia a dia é o que mais se vê. Solução para todos os casos: zás, corta-se o mal pela raiz. Relações cortadas o mais cedo possível a todos os que vejo que me prejudicam seja de que forma for.´
    Para maluco, maluco e meio.
    Por vezes esse género de pessoas julgam-se a última bolacha do pacote, esquecem-se é que por norma são sempre as mais ressecas.

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  20. Bem!... O Ricardo escreve sempre muito bem mas desta vez, antes de escrever, conseguiu chegar à alma "podre" de muitas escolas.
    Infelizmente não tenho outra forma de lidar com estas almas que não seja a ignorância. Digo infelizmente porque penso que se tivesse outra forma de lidar com isto, me sentiria melhor.
    Felizmente, este ano, estou numa escolinha de alma pura!!!

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  21. Excelente trabalho, Ricardo.

    Conseguis-te pôr no papel aquilo que muitos de nós sabemos e sofremos na pele, mas que às vezes, não conseguimos dizer, por várias razões.
    O comentário de EF refere que as mulheres são as mais atingidas. Concordo, sou mulher e já passei, várias vezes, por situações muito dificieis. Neste ano letivo estou mais uma vez a sofrer com esses "colegas". Não tenho uma estratégia definida para lidar com eles, normalmente ignoro-os, mas se a coisa for forte tento defender-me, com mais ou menos sucesso.

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  22. O Ricardo focou um dos aspetos mais importantes do dia a dia desta profissão. O mobbing está a grassar nas escolas como resultado do sistema de avaliação e do modelo de gestão.
    Não sei lidar com esse tipo de colegas, mas gostava! Seria bom que este tema suscitasse a participação de colegas que nos ajudassem a lidar com a situação, através da partilha de estratégias que se tenham revelado eficazes no combate a tamanha perversidade.

    AP

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  23. Em todas as profissoes existem os palmadinhas, o melhor é mesmo passar ao lado, mas se ficarem magoados com eles/elas sempre lhes podem mandar o video para mostrar o vosso desagrado.

    Vejam a letra.

    youtube.com/watch?v=xrZK7n3FbeI

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  24. Sempre podem mandar este video aos colegas que tiveram o azar de conhecer. E atençao que ele existem em diferentes classes profissionais,no entanto onde existe mais rebaldaria é onde proliferam mais,como é o caso das escolas.

    Vejam a letra.

    youtube.com/watch?v=xrZK7n3FbeI

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  25. Vivenciei um caso de mobbing que me atingiu profundamente por se tratar de pessoa minha familiar o que me permitiu conhecer o caso em detalhe. Estudei o assunto e criei o blogue ealmobbing.blogspot.com onde resumo um grupo de artigos de estudiosos do fenómeno que esclarecem e analisam o comportamento do gang do mobbing, os passos, o plano, as consequências na saúde da vítima e nas organizações e com sugestões de autodefesa da vítima. É muito mais grave e vulgar do que se pensa. Noutros países é crime punido com prisão; no nosso temos de nos mexer para ser alterada a lei.

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  26. Eu também tenho uma certa predisposição para ser perseguida por esse tipo de pessoas, não sei porquê (talvez seja karma :P) No início optei por ignorar, mas as coisas não correram nada bem...Acho que ignorar dá-lhes força e vontade de pisar ainda mais porque devem pensar que uma pessoa não reage e eles podem fazer o que lhe apetecer...Por isso a dada altura mudei de estratégia, e qd me aparecem (projetos de) pessoas dessas à frente, eu entro mesmo em guerra aberta com elas e faço questão que todo o mundo saiba o que se passa. É que retalio mesmo...Costuma-se dizer que os fracos vingam-se,os fortes perdoam e os superiores ignoram, mas a minha experiência diz-me que este lema no local de trabalho não funciona :)O lema é mesmo o da lei da selva: ou comes ou és comido :)))













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  27. O secretismo é a mãe de todos os mobbings. A divulgação imediata das atitudes enviesadas dos autores do mobbing corta e destrói um elemento essencial da estratégia de assédio. Brevemente irá circular na net uma petição para a criminalização do mobbing para forçar à discussão na AR de uma alteração legislativa. É importante que tenha uma adesão significativa para se travar este tipo de agressão no trabalho. Até lá, Miss M, dê-lhes a provar do mesmo veneno que vai ver que eles voltam-se para outra vítima. Parabéns pela sua coragem. É o medo das vítimas que aduba o terreno onde crescem as ervas daninhas nas organizações.

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