quinta-feira, 23 de abril de 2009

As bases da desmobilização.

O tema «quente» desta semana, é a desmobilização dos professores. Lendo outros blogues (posts dos autores e comentários dos leitores) e falando com colegas de outras escolas, parece-me que a desmobilização é indesmentível. Não sei se poderemos falar em desmobilização esmagadora, mas será previsivelmente grande.

É importante percebermos os motivos de tal desmobilização, não como meio para a reforçar, mas sim como elementos que permitam reflectir qual o caminho que cada um de nós quer traçar e percorrer. As decisões são sempre pessoais e devem ser muito bem fundamentadas, para que não se caia em incongruências.

Os motivos podem ser inseridos em 3 tópicos:

1) Intransigência do Ministério da Educação.

É fácil compreender que este será um forte motivo. Os professores já constataram que independentemente da resistência que oferecerem, o ME leva quase sempre a melhor. Mesmo no que concerne aos processos judiciais, para já, a estatística favorece o ME. Também ocorreram recuos por parte do governo, que se prendem principalmente com o atraso da aplicação plena deste modelo de avaliação (simplex 1 e simplex 2). Mas são recuos… A partir de Setembro de 2009, terminam as «opções» e surgem as «obrigatoriedades».

2) Erros estratégicos dos sindicatos.

Os erros podem e devem ser enumerados, não como crítica destrutiva, mas para que não se repitam. São eles:
a) Intervalos excessivos entre iniciativas de relevo: Provocaram um esmorecer do espírito de luta, levando os professores a questionar o porquê de tão grandes intervalos. Existem duas correntes de pensamento – a corrente do «atrás dos movimentos independentes» e a corrente «agenda oculta».
b) Propostas aparentemente «suspeitas» em negociações ME/Sindicatos: Muitos colegas, desconfiam de alguns «doces» do ME, que aparentam mais interesse em cativar os sindicalistas e colegas do topo da carreira.
c) A ilógica auscultação dos professores: Os sindicatos apresentam iniciativas definidas no tempo, e só depois são ouvidos os professores;
d) Não adesão e apoio às iniciativas de movimentos de professores e independentes: Algumas delas (como por exemplo: o parecer encomendado pelo blogue “A Educação do Meu Umbigo”) de extrema relevância;
f) Incentivo à não entrega dos Objectivos Individuais (OI), seguida pelo incentivo à entrega da ficha de auto-avaliação: Para mim, este será uns dos erros mais graves. A FENPROF não se deveria ter metido por este caminho. O resultado era mais do que previsto. Aliás, quando esta iniciativa surgiu, afirmei neste blogue por diversas vezes (um exemplo, aqui), que a decisão da não entrega dos OI, deveria ser pessoal e baseada na leitura da legislação. Esta iniciativa estava destinada, desde a nascença, ao fracasso e apresentava na altura, fortes possibilidades de criar ou acentuar divisões entre professores. Embora os sindicatos nunca tenham referido a não entrega da ficha de auto-avaliação, por um motivo de coerência, não deveriam agora apoiar a entrega da auto-avaliação. Aqui esteve presente a estratégia do «logo se vê». Deu mau resultado e agora, querem salvaguardar os próprios «pescoços». Se os sindicatos se opõem a este modelo de avaliação, deveriam rejeitar a totalidade e não, partes. É um erro que ainda pode ser corrigido. Basta os sindicatos terem coragem para isso.

3) Conflitos entre intervenientes com a capacidade de influenciar (sindicalistas, integrados em movimentos e independentes).

Neste últimos dias, tem-se verificado na blogosfera uma intensa discussão, em torno das próximas fases da luta e à forma de actuação dos sindicatos. Por vezes, essa discussão, ultrapassa os limites daquilo que considero saudável, e em alguns casos, fará mais mal do que bem. A frontalidade deveria ter limites, e quando esses limites são ultrapassados, poderemos entrar no campo do radicalismo. Radicalismo que poderá provocar desmobilização nas «cabeças» dos mais influenciáveis e descrentes.

Apenas um pequeno apontamento: se acham que não existem por aí colegas influenciáveis, e que somos todos pessoas informadas, «inteligentes» e autónomas, vejam o que aconteceu com os colegas que não entregaram os OI por influência de outros colegas ou de sindicatos. Estes colegas sentem-se agora traídos. Verificaram que a maioria dos colegas entregaram os OI e que os sindicatos apoiam a entrega da ficha de auto-avaliação. Se o fizeram com outro objectivo, que não rejeitar este modelo de avaliação, procederam de forma errada. Se esperavam que a adesão fosse grande, é porque não conhecem a «classe» a que pertencem. Se o fizeram em consciência e cientes das consequências, estão de parabéns. Quem entregou os OI por decisão própria, não tem de se sentir traído por ninguém, pois fê-lo em consciência, discordava totalmente deste modelo de avaliação, leu a legislação e assumiu uma posição. Adiante...

É importante que se mantenha a capacidade de raciocínio e a vontade de atingir um objectivo mais imediato, que é o retorno à mobilização. Explorar e discutir os erros dos sindicatos? Claro que sim… Explorar e discutir os erros dos sindicalistas? Claro que sim… Insistir no «apontar do dedo», dia após dia após dia? Discordo, pois levará a um acréscimo de desmobilização. E não é isso que se pretende…

11 comentários:

  1. Tento não cair no erro que mencionas; mas é preciso dizer aquilo que se pensa. Nada de palavras «codificadas».
    Os dirigentes têm de aceitar que não estão acima da crítica e se tal não acontece, então nós, os representados, temos todo o direito e legitimidade para revogar o mandato deles!
    Temos de nos auto-organizar, ao nível de zonas pedagógicas, em estruturas horizontais, em assembleias, implicando os sindicalistas de base.
    Solidariedade,
    Manuel Baptista

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  2. "2) Erros estratégicos dos sindicatos.
    a)Intervalos excessivos entre iniciativas de relevo:"

    No corrente ano lectivo tivemos 4 iniciativas de relevo: a manif de Novembro, 2 greves e os OI's. O intervalo entre a manif e os OI's foi de cerca de dois meses. Nesse intervalo de tempo tivemos duas greves com a maior adesão de sempre.

    "b) Propostas aparentemente «suspeitas» em negociações ME/Sindicatos"

    Cada um é livre de suspeitar do que quiser mas seria desejável que os factos sustentassem essas suspeitas.

    "c) Os sindicatos apresentam iniciativas definidas no tempo, e só depois são ouvidos os professores;"

    É uma metodologia porventura menos "flexível" mas permite agilizar o processo de acção.
    Que tipo de referendo propões?

    "d) Não adesão e apoio às iniciativas de movimentos de professores e independentes"

    A não entrega dos OI's foi uma iniciativa conjunto de movimento e da plataforma. As greves mereceram a anuência dos movimentos. Há pontes que podem ser exploradas...

    "f) Incentivo à não entrega dos Objectivos Individuais (OI), seguida pelo incentivo à entrega da ficha de auto-avaliação:"

    É bom recordar que a iniciativa surge depois de inúmeras tomadas de posição colectivas, abaixos-assinados e outros quejandos que vinculavam os subscritores à acção. Não podemos acusar os sindicatos de não ouvirem os professores e depois criticá-los porque os ouviram e não deviam. Relembro que quem roeu a corda foram os professores sem palavra.

    Se os professores que não entregaram os OI's pretendem entregar por que razão devem os sindicatos sugerir uma acção de luta condenada desde logo ao fracasso? Valha-nos Deus ;))

    Abraço,
    Miguel Pinto

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  3. Se os professores que não entregaram os OI's pretendem entregar a ficha de auto-avaliação por que razão devem os sindicatos sugerir uma acção de luta condenada desde logo ao fracasso?

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  4. Para Manuel Baptista: Obviamente que temos de explicitar o que nos percorre a mente. O desânimo e desagrado perante determinadas situações, deverá ser explorado de forma construtiva. Ao insistirmos na crítica, sem opções viáveis, apenas estaremos a provocar a auto-desmotivação.

    Os dirigentes não estão acima da lei... Os professores criticam os dirigentes e por consequência, os sindicatos. Se reparares, muitos dos professores que discordam da actuação dos sindicatos e os criticam de forma acérrima, continuam comodamente vinculados. Porquê? Não sei..

    Relativamente à frase: "Temos de nos auto-organizar, ao nível de zonas pedagógicas, em estruturas horizontais, em assembleias, implicando os sindicalistas de base." É uma excelente sugestão, no entanto, a logística necessária para tal, teria de passar obrigatoriamente por uma estrutura suficientemente organizada para alcançar a mobilização necessária. E sem serem os sindicatos, desconheço estruturas que possam assegurar essa logística.

    Para além do mais, corremos o risco da desmobilização continuar. Presumo que a solução, passe obrigatoriamente pela reconstrução da relação de confiança entre professores e sindicatos.

    Abraço.

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  5. o Pinokrates fugiu de bicileta à possibilidade de alguém indignado lhe fazer uma destas 10 Perguntas Indiscretas, para responder em Playback à frente de um Kagalhães marca JS

    1-qual a sala de aula em que esteve mais tempo, na Independente, na 24 de Julho ou no largo do Rato?

    2-se alguma vez fez um balde de cimento, como é que misturou a areia?.. (tem direito a uma ajuda telefónica)

    3-o curso de Inginharia foi um "embuste" ou era já o início das Novas Oportunidades?

    4-naquela comunicação em que disse: "vamos ficar mais pobres" distraiu-se ou fugiu-lhe a boca para a verdade?

    5-no centro comercial FreePobres, quem ficou a ganhar com o negócio?.. partindo do princípio que nunca foi ministro do Ambiente, mas que alguém ganhou alguma coisa

    6-o Primókrates está mesmo na China, ou é só a "fingir" como os Cursos de Inginharia?.. se tem a certeza que está, especifique como fez as contas

    7-um reformado pode receber a pensão nas Ilhas Virgens, onde a sua mamã comprou a casa, para pagar menos imposto?

    8-se lhe saiu a Fava quando se casou, o que é que saíu à sua ex-mulher para ela não querer mais Bolo-Rei?

    9-se a Educação em Portugal está uma maravilha, porque é que não colocou os seus filhos na escola pública?

    10-como se diz Novas Oportunidades em alemão?

    pergunta de Bónus: você acredita mesmo que os portugueses são todos parvos?

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  6. 2) Erros estratégicos dos sindicatos.
    Eu acrescentaria o facto de não ter existido, de forma inequívoca, a assumpção do falhanço do modelo de avaliação anterior e a entrega, em tempo útil, de uma proposta alternativa completa e consistente, a par da rejeição da actual. Não basta dizer que nós não tememos uma avaliação justa ou afirmar que os professores sempre foram avaliados, é necessário ir mais longe.

    Quanto aos colegas que não entregaram os OI e se sentem agora traídos, conheço alguns (aliás, não conheço nenhum colega que não tenha entregue os OI e não se sinta desse modo) e sei que será muito difícil voltar a ganhar alguns deles para esta ou próximas causas.

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  7. Para Miguel: Deves ter percebido, que fiz um resumo dos argumentos que li em blogues e em conversa com colegas.

    Relativamente aos erros dos sindicatos: Alguns serão factos, outros baseiam-se em sentimentos dos colegas. Bem sei que os factos são relevantes, mas os sentimentos também não serão? Nem todos olhamos para a estratégia sindical da mesma forma. E este factor deveria ser relevante...

    Quanto à tua questão: "Que tipo de referendo propões?"

    Proponho um referendo realmente vinculativo e não somente consultivo.

    E passo a explicar: Quando os sindicatos, consultam os professores, apresentam previamente aos meios de comunicação, as decisões fulcrais já situadas temporalmente e afirmando que serão «grandes». O que fazem depois é sondar os professores, não existindo na realidade um elemento vinculativo. As iniciativas, mesmo que desagradem ou as novas propostas, poderão pura e simplesmente ser ignoradas por já terem sido anunciadas outras (que poderão entrar em conflito, por ex.). Este tipo de referendo, poderá provocar desmobilização, pois os docentes não são realmente «envolvidos» ou ficam com essa «sensação».

    Um referendo consultivo é o que eu proponho, ou seja, fazem as "consultas gerais" primeiro, ponderam as sugestões (que poderão ser votadas ao nível de escola e enviadas posteriormente para as «filiais» sindicais), decidem quais as que possuem maiores probabilidades de sucesso (das mais votadas) e só depois procederiam à sua divulgação aos meios de comunicação. Os professores sentiam-se mais envolvidos na luta, nas decisões e provavelmente, calavam os apoiantes do argumento c) - como eu.

    Foi um prazer responder à tua questão. Estava à espera que alguém a fizesse. Se discordares da minha opinião, estou aqui para a discutir e eventualmente refazer, se apresentares argumentos válidos.

    Um grande abraço.

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  8. "Um referendo consultivo é o que eu proponho, ou seja, fazem as "consultas gerais" primeiro, ponderam as sugestões (que poderão ser votadas ao nível de escola e enviadas posteriormente para as «filiais» sindicais), decidem quais as que possuem maiores probabilidades de sucesso (das mais votadas) e só depois procederiam à sua divulgação aos meios de comunicação. "

    Não sei se o meu argumento é válido ;) mas o que me ocorre dizer é o seguinte: a pretensa ausência de participação dos professores nas reuniões pode significar indiferença pelas questões sócio-profissionais. Se a maioria dos professores não quer participar nunca se podem sentir defraudados por decisões tomadas por terceiros. Ou não?

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  9. sei que isto é mais um "lugar comun", mas cá vai- AFINAL COMO, QUANDO E QUEM VAI DE UMA VEZ POR TODAS AVANÇAR COM A ORDEM DE PROFESSORES.......O QUE É QUE AINDA FALTA ACONTECER DE MAU.....COMO DIZIA MARTIN LUTHER KING- é o silêncio dos bons que me preocupa

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  10. 1ª - Falta de coragem por parte de alguns colegas acomodados!

    2ª- alinho pela tua 3ª opção: Conflitos entre intervenientes com a capacidade de influenciar!

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  11. Para Miguel: Concordo com o teu argumento, mas só o subscreveria se considerasse irreversível a actual desmotivação e "indiferença" da maioria dos professores. Obviamente que quem não quer participar, não se pode sentir defraudado. No entanto, existem aqueles que participam e que por se sentirem meros assinantes de iniciativas, se sentem defraudados, pela fraca possibilidade de intervenção nas propostas dos sindicatos.

    Digamos que, será mais uma questão «emotiva» do que uma questão «real», no entanto, acho que faria milagres.

    Um abraço.

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